Na mídia

Mercado editorial de Rio Preto vive momento de perdas e ganhos

Contrariando dados nacionais, editoras independentes de Rio Preto conseguem driblar crise acentuada pela pandemia com estratégias como o nichamento de mercado.

O mercado editorial brasileiro tem registrado quedas pontuais ao longo dos anos. Recente pesquisa divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livro revela que esse segmento encolheu 20% entre 2006 e 2019, e as perspectivas de recuperação não são positivas com o estabelecimento da pandemia do novo coronavírus. Por outro lado, o cenário não é tão desolador para editoras independentes, que já estão habituadas a lançar mão de estratégias alternativas para se manter na ativa. Em Rio Preto, o período de distanciamento social tem representado perdas e ganhos para quem atua no setor editorial.

“Acredito que o espaço tende a crescer para as editoras independentes. Trata-se de um perfil de editora que tem um contato mais direto com o seu público. Hoje, por exemplo, há gente que está ganhando a vida vendendo livro de porta em porta. Todos estão buscando alternativas para fazer fluir suas obras”, comenta Paulo Resende, responsável pela Vitrine Literária, editora que atua no mercado rio-pretense desde 2008.

Desde que começou a pandemia, a Vitrine Literária já realizou o lançamento de dois novos livros e analisa a publicação de mais três obras. Uma das estratégias adotadas por Resende nesse período é o lançamento via e-mail. “Envio uma espécie de amostra grátis ao leitor, para que, a partir da degustação da obra, ele tenha interesse em adquirir o livro físico. E a demanda está sendo muito boa”, sinaliza ele, que criou a editora a partir da necessidade de publicar seu próprio livro.

Outro ponto positivo para as editoras independentes apontado por Resende é o foco de atuação das grandes editoras, que hoje está mais voltado ao que ele classifica de “literatura espetáculo”. “Um autor desconhecido tem poucas chances nas grandes editoras, a não ser que ele seja um youtuber com mais de 2 milhões de seguidores ou protagonista de uma grande tragédia pessoal”, opina. “Grandes editoras também investem mais em reedições do que no lançamento de um novo autor”, acrescenta.

Com mais de 100 obras editadas ao longo de sua trajetória, a Vitrine Literária não publica livros apenas de autores da região de Rio Preto. Em seu histórico, traz publicações de autores de cidades como Belo Horizonte e São Paulo, oportunizando aquilo que uma grande editora não tem interesse em publicar.

No entanto, Resende destaca que há inúmeros desafios encarados por uma pequena editora que ainda persistem, como a divulgação do lançamento de uma obra e a distribuição, que pode consumir até 60% do preço de capa, sem a garantia de que vendas serão geradas para a publicação.

Nichos de mercado

Para quem atua há mais tempo nesse mercado, a situação é mais delicada nesse momento de pandemia. É o caso da THS, editora criada por Lelé Arantes em Rio Preto no ano de 1997. Com uma média de 14 publicações por ano, a editora viu sua produção encolher em 20% desde o início do período de distanciamento social.

“Estamos parados. No primeiro semestre deste ano, foram pouquíssimas obras lançadas, no máximo três publicações”, comenta Arantes, que garante que nunca conseguiu viver exclusivamente de sua editora. “É uma empresa que nunca me remunerou. Tudo que ganha acaba sendo investido nela mesma. É mais uma satisfação pessoal, uma forma de poder colaborar com a cultura de Rio Preto.”

O editor da THS acredita que levará cerca de dois anos para uma recuperação efetiva após a pandemia porque hoje as pessoas estão gastando aquilo que não têm. “Publicar um livro é mais uma satisfação pessoal do que um negócio rentável. É difícil um escritor da região que vive do que escreve. Ele junta dinheiro para publicar seu livro e conta com a ajuda dos amigos apenas para conseguir cobrir seus gastos. Por isso, acredito que muitos vão adiar esse desejo de fazer uma publicação em livro.”

Editoras mais novas, que surgiram na esteira da THS, driblam as adversidades deste e de outros momentos delicados da economia com a atuação em nichos específicos dentro do setor editorial. Até mesmo o período de pandemia é oportunizado na geração de novos negócios, como é caso da Ponto Z, criada em Rio Preto por Edmilson Zanetti há pouco mais de um ano.

A Ponto Z está finalizando uma coletânea com poemas e contos de 97 autores que refletem justamente sobre o distanciamento social imposto pela Covid-19. Além disso, está negociando a edição de mais duas obras nesse sentido, uma delas na cidade de Santos. “Ao mesmo tempo que a pandemia te prende ela se torna uma motivação, uma ocupação para as pessoas, que estão mais em casa e estão mais reflexivas em torno desse momento. Escrever acaba sendo uma ocupação”, comenta Zanetti. “Além disso, há muitas pessoas que estão aproveitando esse período para tirar seus escritos da gaveta e se tornarem autores de fato. Surpreendentemente, o mercado, para mim, não se abalou muito.”

Criada em 2006 por Deodoro Moreira, a Serifa Editora e Comunicação se garante nesse período de crise por atuar com trabalhos sob demanda. “Por ser uma editora pequena, não tenho capital para bancar um autor. Ou seja, o autor da publicação acaba sendo totalmente responsável por ela”, declara. Em seu histórico, Serifa conta com várias publicações viabilizadas por meio de editais de fomento cultural, como o Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa.

Por não depender tanto da venda direta, em livraria ou sites do ramo, Moreira diz que não foi tão afetado. “Para quem depende de vendas, a situação é mais complicada, pois os dados mostram uma queda no segmento editorial.”

Criada em 2006 por João Paulo Vani, a Editora HN se especializou ao longo de sua trajetória na publicação de obras acadêmicas, que dividem espaço com as publicações literárias. “O fato de eu ter feito mestrado e doutorado me deu um certo embasamento para entender as dinâmicas desse ambiente acadêmico. Desde 2009, a minha editora atende aos parâmetros exigidos por órgãos como o Caps [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], que exige um conselho editorial e um rol de pareceristas. Apesar de minha atuação ser regional, tenho um trânsito acadêmico positivo, com obras que já foram publicadas em países como França, Estados Unidos e Angola.”

Sobre os efeitos da pandemia, Vani comenta que eles foram mais sentidos na cadeia produtiva do livro. “Uma obra que levava cerca de quatro meses para ser produzida hoje consome seis meses. Agora, em termos de produção, não tenho muito do que reclamar”, sinaliza ele, que também está à frente de uma publicação que reúne reflexões de diferentes acadêmicos do País sobre o mundo pós-pandemia.

A liberação de obras para download gratuito também é apontada por Vani como uma boa estratégia para promover a visibilidade de sua editora no mercado. “Liberar um material gratuito para as pessoas nesse momento em que elas estão buscando algo para se entreter é uma excelente troca social”, enfatiza ele, que tem tido muitos acessos no site da Editora HN desde que adotou essa estratégia.

Texto de Harlen Felix

Matéria completa – Diário da Região (22/07/2020)

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