Na mídia

Silêncio, reverência, dor: cidades ligadas por traumas coletivos

João Paulo Vani e Nayara Dalossi

Nascido e criado em São José do Rio Preto, desde muito cedo me interessei pela história da cidade. Pude, ao longos dos anos, em contato com pessoas incríveis, conhecer alguns detalhes, alguns meandros dessa história. Dona Dinorah do Valle me ensinou; professor Agostinho Brandi, também. Com a professora Nilce Lodi, aprendo até hoje. Bebi de fontes como Lelé Arantes, Dino Vizotto, Larte Miola, Edson Baffi, Marciana Lopes, Jorge Maluf, entre tantos e tantos outros. E assim, apaixonado pela história da cidade e portador de uma curiosidade crônica, não demorei a me deparar com o acidente dos Estudantes do Rio Turvo. Primeiro, soube que havia acontecido. Depois, soube como a cidade havia acionado seus parcos recursos e colaborado com todas as forças disponíveis para que aqueles 59 estudantes recebessem com dignidade e honradez a despedida que lhes era devida.

Hoje, tenho a oportunidade de compartilhar o conhecimento apreendido, e este texto escrito a quatro mãos, com minha pupila, Nayara Dalossi.

Naquele 24 de agosto de 1960, dois ônibus com estudantes, muitos da Escola Técnica de Comércio “Dom Pedro II” (atualmente, Faculdades Dom Pedro II), seguiam de São José do Rio Preto para Barretos, para que a fanfarra da escola pudesse se apresentar em um baile ainda naquela noite e, no dia seguinte, pudessem tocar em um evento festivo. Na travessia da ponte, ainda em construção, o motorista perdeu o controle sobre o veículo, caindo no rio. Daqui para frente, todos os rio-pretenses conhecem a história.

Aos familiares, que estavam diante da perda de seus filhos, a cidade ofereceu palavras de consolo, reverência e um cortejo, tido como um dos momentos mais tristes e desoladores desta cidade. São José do Rio Preto parou para chorar seus mortos no episódio que se revelou ser o mais devastador de sua história, sensivelmente registrado pelas lentes de Jayme Colagiovanni, em uma imagem da praça Rui Barbosa tomada pela população, consternada.

A tragédia dos estudantes do Turvo representou um marco na História de Rio Preto, e nesses mais de cinquenta anos, foi lembrado em diversas ocasiões, sobretudo em seu aniversário, com mostras fotográficas, além de duas músicas terem sido dedicadas ao episódio. Em uma delas, batizada de “Tragédia do Turvo”, escrita por Joaquim Moreira e Viera, e cantada por Vieira e Vierinha, os versos revelam o sentimento que tomou conta da cidade: “Na cidade de Rio Preto | A capitár do sertão | Para o povo rio-pretense | Da cidade e região | Dentro de poucos minutos | Veio uma onda de luto | De tristeza e de paixão”. Na voz de Tião Carreiro e Pardinho, outros versos da mesma dor: “Rio Preto também perdeu (…) Nas águas do Rio Turvo cinquenta e nove estudantes | Meus Deus tenha piedade defenda nossa cidade | E também seus habitantes”.

Um livro de crônicas e notícias, escrito por Nelson Castro, reuniu 194 páginas de dor e saudade, como se revela no trecho: “Eram cinquenta e nove esperanças, que os pais idolatravam e que as chagas deixadas pelas suas ausências, jamais se cicatrizarão. Saudade, dorida saudade que ficou de tudo!”.

Nesta semana, uma nova fatalidade ceifou brutalmente a vida de oito estudantes, três professoras e uma diretora de escola e uma fotógrafa, em acidente envolvendo um ônibus e um caminhão em Ibitinga. As vítimas faziam parte de uma excursão, com 110 pessoas, divididas em três ônibus, que saíram de Borborema e foram até a cidade de São Paulo, onde alunos e professores da Escola Estadual Dom Gastão Liberal Pinto puderam visitar diversos pontos turísticos da capital do estado.

No retorno pra casa, a fatalidade. De um momento para outro, o inimaginável aconteceu de novo. O sentimento que permeia esta tragédia não é novo, mas oferece uma dor adicional, germinadas nas recentes narrativas interrompidas que contam, em seus finais, uma história que faz esta comunidade reviver aquela “Saudade, dorida saudade que ficou de tudo”. São José do Rio Preto se solidariza à dor de toda a população de Borborema.

João Paulo Vani é presidente da Academia Brasileira de Escritores | Nayara Dalossi é Graduanda em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo.

Artigo originalmente publicado na página 4C da edição do dia 1 nov 2014 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, SP.

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