Na mídia

Treze anos depois, a ferida do 11 de setembro ainda sangra

Nesta semana, o mundo mais uma vez reverenciou as vítimas dos atentados terroristas ocorridos em 11 de setembro de 2001, episódio em que morreram 2.997 pessoas de modo brutal e sem precedentes, que não somente marcaram o início de um novo momento histórico nos Estados Unidos da América, o da Guerra ao Terror, como também se tornaram tema de publicações, artísticas ou não, em todo o mundo. Para o filósofo Noam Chomsky, “as horripilantes atrocidades cometidas em 11 de setembro são algo inteiramente novo na política mundial, não em sua dimensão ou caráter, mas em relação ao alvo atingido”.

Medo, insegurança, incerteza, trauma. Os reflexos de atos terroristas podem ser fartamente citados. Mas, o que é terrorismo?

O FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, explica o terrorismo como sendo o “uso ilegal da força ou violência contra pessoas ou propriedades para intimidar ou coagir um governo, a população civil, ou qualquer segmento da população, em prol de objetivos políticos ou sociais”.

Considerando a imediata mudança de sentido que o termo “segurança” sofreu dentro da sociedade americana, a partir da primeira notícia de que o choque entre aviões comerciais e torres do World Trade Center havia sido planejada por um grupo terrorista, essa variação estilhaça a ideia anterior de invulnerabilidade, e exprime uma catastrófica realidade a ser absorvida pelo público de forma bastante cruel. Esse episódio permite uma reflexão à luz da noção de mímese.

O crítico brasileiro Luiz Costa Lima, ao revisitar o conceito de mímese de Aristóteles faz a seguinte colocação: “um recurso da mímese trágica é o efeito de surpresa, o qual, mesmo inverossímil, pode parecer verossímil, porque é verossímil que aconteçam coisas inverossímeis”. Pensando os eventos de 11 de setembro com base nas constatações sobre mímese, podemos traçar um paralelo entre a representação mimética da arte e os ataques terroristas no momento em que o inverossímil se torna verossímil e, diante de algo que não se podia sequer imaginar, o poderio americano se vê ameaçado. Assim, uma vítima de acontecimentos inverossímeis pode não conseguir compreender a magnitude do acontecimento devido à falta de um referencial verossímil, gerando um trauma.

Em pouco mais de 12 horas, desde o momento em que o voo 11 da American Airlines, um Boeing 767 com 92 pessoas a bordo decola de Boston, com destino a Los Angeles, até o pronunciamento de seis minutos do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush à nação, os Estados Unidos da América viram ruir o conceito de que eram inatingíveis.

E, por mais que a imprensa internacional tenha, exaustivamente, anunciado o ocorrido em Nova York, para nós, brasileiros, os atentados do dia 11 de setembro pode ter parecido algo abstrato, seja pela pouca probabilidade de algo semelhante acontecer aqui, seja pela distância física que nos separa. Por essa razão, há dois anos, ao começar meus estudos sobre o tema, planejei uma viagem à cidade de Nova York. Para poder realizar uma análise mais próxima do real, estive no Ground Zero. Depois de dois dias ensolarados e de muito calor, Nova York amanheceu, em 11 de setembro de 2012, cinzenta e fria. Triste. Como quem chora seus mortos. O dia triste daquele aniversário dos atentados terroristas contrastava com o belo dia de céu claro em que a tragédia aconteceu.

Tão logo desembarquei na estação de Cortland, pude perceber o clima do ambiente. Entrei em um café quase vazio e vi uma senhora, que sozinha e chorando, comia em silêncio, com seu olhar fixo em um quadro do local. Na moldura, uma honor flag, réplica da bandeira dos Estados Unidos na qual as listras foram substituídas pelos nomes das vítimas do 11 de setembro. Ao final de sua refeição, a senhora parou na mesa ao lado, com três oficiais da Polícia de Nova York, e lhes agradeceu pelo trabalho e empenho, e lembrou: seu marido foi uma das vítimas dos atentados. Durante as sete horas seguintes, vi repetições desse primeiro agradecimento, desse primeiro olhar desolado.

Pude constatar durante a minha permanência no Ground Zero o clima de reverência. É interessante ver o modo como o cidadão americano se dirige às autoridades neste evento. Os militares, das mais diferentes corporações, são tratados como “celebridades”.

Pude ver um pai, sentado durante todo o dia, consternado, emudecido, olhar fixo na direção do vazio deixado pelas torres. A filha que o acompanhava respondia às poucas pessoas que perguntavam: o irmão trabalhava nas torres. Naquele dia foi trabalhar, como centenas de outras pessoas e nunca mais voltou para casa.

Há dois anos pude ver que o silêncio de uma multidão pode ser ensurdecedor. Às 10:28 da manhã, exato momento em que a Torre Norte entrava em colapso, um toque militar ecoou pelas ruas de Manhattan, triste e desolador. Oficiais prestaram continência. O público emudeceu e chorou. Naquele momento acabava para mim qualquer traço do abstrato, tornando o 11 de setembro muito real e doloroso.

Treze anos depois, a ferida do 11 de setembro ainda sangra.

Artigo originalmente publicado na página 4C da edição do dia 13 set 2014 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, SP.

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