Na mídia

Rio Preto à sombra do horror

Na edição do dia 6 de dezembro, o jornal Diário da Região trouxe em sua capa a ameaça, ainda sem autoria conhecida, feita ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), na qual uma pichação de uma suástica, símbolo do regime nazista de Adolf Hitler, com os dizeres “Nós temos armas e vcs?” colocou não apenas os dirigentes do partido, mas seus militantes, em estado de alerta. Essa foi a segunda investida com a representação do símbolo nazista contra o partido.

Em nota oficial, o PSOL divulgou que “repudia qualquer ato que represente uma atitude nazista ou fascista e continuará buscando seu objeto de uma sociedade sem desigualdade e socialista (…) Nosso partido é o único que possui liberdade no nome, o que contraria o sistema nazifascista, e reafirmarmos que continuaremos nossa luta apesar das ameaças que sofremos.”

É importante destacar que, desde 1989, é proibido em todo o território nacional “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”, sob pena de reclusão de até cinco anos.

Ainda que existam registros de diferentes modelos de suásticas desde o Período Neolítico em diferentes regiões do planeta, uma vez adotada como logotipo do Partido Nazista, a cruz que traz em seu nome, oriundo do sânscrito, o significado original de felicidade ou boa sorte, passou a simbolizar justamente o contrário.

O regime de Hitler na Alemanha foi responsável pelo maior genocídio da História, denominado Holocausto. Ainda que os números dessa barbárie sejam bastante imprecisos, acredita-se que durante a II Guerra Mundial, tenham morrido até 72 milhões de pessoas.

Em seu livro Mein Kampf (Minha Luta), datado de 1926, Adolf Hitler expõe sua crença sobre o cruzamento de raças, do seguinte modo: “Em poucas palavras, o resultado do cruzamento de raças é, portanto, sempre o seguinte: a) rebaixamento do nível da raça do mais forte; b) regresso físico e intelectual e, com isso, o começo de uma enfermidade, que progride devagar, mas seguramente”.

Uma vez no comando da Alemanha, Hitler colocou diante de sua mira todos aqueles que não se encaixavam nos padrões por ele definidos como satisfatórios, na busca insana pela pureza da raça ariana. Somente em Auschwitz estima-se que tenham sido executados entre 10 mil e 20 mil homossexuais, prisioneiros políticos e testemunhas de Jeová; pelo menos 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos; cerca de 20 mil ciganos; 140 mil poloneses e 1,1 milhão de judeus. Negros e deficientes físicos também foram executados pelos regime nazista.

É preciso lembrar que, embora a Alemanha tenha liderado um bloco de países com ideais antissemitas durante a Segunda Guerra Mundial, o povo alemão sofreu as consequências dessa guerra da mesma forma que outros povos.

O historiador Roney Cytrynowicz, em artigo sobre o estudo do Holocausto publicado em 2000, alerta: “Lembrar do Holocausto tem se tornado cada vez mais um imperativo moral e político para que os que entendem este evento como um evento central das terríveis possibilidades de destruição tornadas possíveis no século 20. […] Ao mesmo tempo é importante pensarmos e problematizarmos as formas de lembrar, os registros da memória e da história, de forma que o Holocausto seja lembrado e problematizado para que possamos constituir mais ferramentas para construir a democracia”.

E esse lembrar é de fundamental importância não apenas para que o horror cometido pelo regime de Hitler não seja esquecido, mas também – e principalmente – para que não existam brechas para o movimento negacionista, aquele que tenta produzir argumentos que dão conta que o Holocausto não aconteceu.

De acordo com o historiador Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus, no Brasil, esse movimento teve um forte representante, que em um de seus livros chega a colocar em dúvida a veracidade “de documentos e testemunhos utilizados para incriminar os nazistas e, como não poderia ser diferente, questiona a existência das câmaras de gás, o número de judeus mortos, a eliminação sistemática nos campos de concentração. O autor estudado por Jesus “atribui a responsabilidade da guerra aos judeus, acusando-os de arquitetar um plano sionista para dominar os meios de comunicação, a economia e a política”.

Assim, com esse pequeno panorama histórico, podemos compreender que a ameaça feita há alguns dias ao PSOL configura uma ameaça ao povo brasileiro, ao nosso regime democrático. Os ideais nazistas devem ser incansavelmente combatidos pelas nossas autoridades, e rechaçados pela nossa sociedade.

Artigo originalmente publicado na página 4C do dia 07 mar 2015 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto – SP.

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