Um dos mais influentes escritores do século 20, George Orwell morreu em 1950. E seu último trabalho, publicado poucos meses antes de sua morte, figura na lista de livros mais vendidos nos Estados Unidos, com efeitos também no Brasil. Trata-se de 1984, clássico da literatura que se tornou um ponto de referência na era do presidente norte-americano Donald Trump. O livro voltou aos best-sellers após a equipe de Trump dar declarações consideradas falsas sobre a posse do novo presidente, ao anunciar um número maior de público comparado a posse de Barack Obama.

Questionada sobre as aparentes mentiras, a assessora do presidente, Kellyanne Conway, usou um discurso semelhante ao publicado no livro e disse que as declarações foram apresentadas como “fatos alternativos”. Na semana do dia 23 de janeiro, o livro encabeçou a lista dos mais vendidos do site Amazon.com, no Estados Unidos. A Signet Classics, editora que publica 1984, anunciou que “as vendas aumentaram 10.000% após a posse de Trump”. No Brasil, o livro é editado pela Companhia das Letras.

Segundo a empresa, houve, de fato, um aumento nas vendas no Brasil, em especial da versão digital do livro. Na livraria Leitura, do Shopping Iguatemi, foram vendidos nos últimos dias dez exemplares do livro. Nas livrarias Saraiva e Empório Cultural, no Riopreto Shopping, a procura é considerada normal. Recomendado por professores para explicar regimes totalitários, 1984 fala sobre a ameaça de tirania política no futuro e conta a história de Winston, aprisionado em uma sociedade dominada pelo Estado, em que tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho.

João Paulo Vani, presidente da Academia Brasileira de Escritores e doutorando em Letras pela Unesp, afirma que 1984 é uma ficção distópica. “A distopia é o avesso da utopia, ou seja, não retrata aquilo que desejamos, o positivo, e sim o que tememos, o negativo. Acredito que o aumento nas vendas da obra está relacionado ao ambiente de medo que se cria diante das incertezas que a gestão Trump traz ao mundo, dentre as quais a possibilidade de privação dos direitos individuais, consequência dos regimes totalitários.”

Vani afirma que 1984 é o resultado da vivência de um escritor inserido em um contexto de enormes mudanças, ocorridas entre o final do século 19 e a primeira metade do século 20. “Naquele período, o Império Britânico via seu poderio econômico se abalar, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos surgiam como nova promessa de império. O mundo mudava rapidamente. Surgiram as teorias de Darwin, Marx, Freud, Einstein”, explica. Diante de tantas mudanças, Orwell, segundo Vani, passa a acreditar que a tecnologia pode se tornar uma ferramenta de controle e repressão.

Por essa perspectiva, a sociedade se torna fragilizada. “A repressão política e social são práticas comuns em quaisquer regimes totalitários, de esquerda ou de direita. A sociedade pode ter acesso a isso na segunda metade do século 20, diante das narrativas vindas das extintas União Soviética e Alemanha Oriental, de Cuba e da Coreia do Norte. E, neste momento, com 15 dias de gestão e muitas mudanças em questões que tocam no protecionismo da nação, acredito que seja este o grande questionamento em torno do governo Trump: a eventual adoção de uma postura totalitária.”

Vladimir Miguel Rodrigues, professor e escritor, autor de O X de Malcolm e a Questão Racial Norte-americana, faz uma pergunta para ligar 1984 ao atual momento da presidência dos Estados Unidos. “Como não lembrar de Trump em um momento em que se fala de ‘Pós-Verdade’ (os fatos são menos importantes que as opiniões pessoais) e relacioná-lo ao ‘Ministério da Verdade’ de 1984? Trump, pelo Twitter, inventa absurdos, como ‘Obama criou o Estado Islâmico’, e muita gente acredita, sem qualquer tipo de prova.”

Rodrigues destaca que Umberto Eco (filósofo) afirmou, pouco antes de morrer, que as redes sociais deram voz aos imbecis. “As pessoas consomem informação a todo instante sem checar a veracidade, é um sintoma da ‘sociedade do cansaço’, do filósofo Han. Pensar cansa! Em 1984, o ‘Ministério’ dissemina falsas informações para a população como se fossem ‘verdades’ de fato, lembrando o manual da propaganda nazista de Goebbels (político alemão): ‘uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade’.”

Ao dar passos em direção ao isolamento do país, aumentando a vigilância em todos os lugares, de lanchonetes a aeroportos, os Estados Unidos, segundo o professor e escritor, vão relembrando a privação de liberdades individuais que se lê em 1984. “Mas isso não vem de agora, só está se aprofundando, ou nos esquecemos do caso Snowden (ex-funcionário da CIA)? Por fim, vislumbra-se, com Trump, o estado de guerra permanente dos EUA no Oriente Médio, na ânsia de acabar com o Estado Islâmico, da mesma forma como se supunha no contexto de 1984, quando a Inglaterra (Oceania) guerreava a todo instante, mesmo sem o povo saber contra quem.”

 

Obra inspira Big Brother

O livro 1984, de George Orwell, inspirou o reality show Big Brother, que está na 17ª edição no Brasil. Na obra, que foi traduzida em 65 países, virou minissérie, filme, influenciou quadrinhos e mangás, as pessoas são vigiadas por uma sociedade totalitária governada pelo ‘Grande Irmão’. Vladimir Miguel Rodrigues explica que o livro influenciou o programa com a ideia das pessoas estarem 24 horas sob a tutela de câmeras, “no caso do livro, o domínio do Grande Irmão, que tudo via pela teletela.”

O professor e escritor afirma que relaciona o programa com o experimento humano de ver de que maneira as pessoas reagem ao estarem sendo vigiadas. “Platão, há 2,5 mil anos, relacionou isso à ética. Em ‘O Anel de Giges’, afirmou que os homens só são justos porque temem o castigo. Ninguém é justo porque deseja, mas por imposição. A conduta ética dependeria apenas do medo da punição? Em 1984, as pessoas que subvertem o regime são torturadas. Até que ponto mudamos o comportamento por estarmos sendo vigiados por câmeras? Parece-me que elas estão à nossa volta na maioria dos lugares. Nem é preciso dar uma espiadinha.”

 

O autor

Pseudônimo de Eric Arthur Blair, George Orwell nasceu no dia 25 de junho de 1903, na Índia, onde seu pai era funcionário público e trabalhava para o império britânico. Filho de mãe francesa, ele estudou em colégios tradicionais da Inglaterra e se tornou jornalista, crítico e romancista. Seu primeiro livro foi lançado em 1933. Trata-se de Na Pior em Paris e Londres. Durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor trabalhou como correspondente de guerra para a BBC

Além de 1984, lançado em 1949, também ganhou destaque com o romance A Revolução dos Bichos, escrito quatro anos antes. Popular, A Revolução dos Bichos é uma fábula sobre o poder. Escrito em plena Segunda Guerra, satiriza a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Entre outras publicações, Orwell escreveu Dias na Birmânia (1934), O Caminho de Wigan (1937) e Por Que Escrevo (1946). Morreu em 1950, vítima de tuberculose.

 

Literatura ajuda indivíduo a entender fatos históricos

O professor e escritor Vladimir Miguel Rodrigues há dez anos desenvolveu um trabalho acadêmico sobre relações entre 1984 e a paranoia americana, de controle da população, provocada pela Guerra ao Terror pós-11 de setembro. “Sempre gostei das distopias (condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia) como forma de reflexão de uma realidade não tão improvável; e o século 20 foi marcado por muitas no campo das Artes, de Orwell a Huxley (escritor inglês), passando pelo clássico Blade Runner, muito pela influência do totalitarismo da época.”

Além de 1984, de George Orwell, alguns livros foram referência em outros momentos políticos. Na história do Brasil, por exemplo, nos anos de repressão da Ditadura Militar, é possível citar o romance distópico Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Nesta obra, o autor cria um mundo fantasioso, no qual as pessoas são sempre felizes, ainda que não sejam livres e nem tenham postura crítica, vivendo em ‘harmonia’ em uma sociedade de castas. Nesta obra, existe também o papel da tecnologia como mediadora dos problemas do homem, diminuindo seu papel.

A obra de Huxley é referência para a canção Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, em que o termo gado se refere à submissão do povo. Segundo João Paulo Vani, presidente da Academia Brasileira de Escritores e doutorando em Letras pela Unesp, tanto na ficção inglesa quanto na realidade brasileira, a do regime militar e a atual, a alienação da massa facilita as manobras dos governantes. “Desse modo, a perspectiva de viver em uma realidade paralela, encoberta pela propaganda capaz de gerar uma falsa sensação de bem-estar, evita problemas com a população, o gado.”

Vani afirma que são importantes para a literatura essas relações, seja com a política ou com outro fator que movimente a venda dos livros e estimule a leitura. No entanto, é preciso separar literatura e mercado editorial. “A literatura é uma expressão artística e, como tal, acaba por retratar criticamente o contexto no qual o escritor está inserido. As relações encontradas nas obras literárias, que envolvem política, direito, economia, são fundamentais para que o indivíduo possa compreender o presente e o passado, bem como possa se preparar para o futuro.”

A literatura tem ainda a capacidade de auxiliar, na sua visão, o indivíduo na compreensão da história ou no aprofundamento de fatos cotidianos que são convertidos em fatos históricos. “O distanciamento de alguns anos de episódios como as Guerras Mundiais, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o 11 de setembro, dentre tantos outros, permite aos escritores produzir narrativas capazes de levar o indivíduo à reflexão e maior compreensão de tais fatos. Além disso, quando uma obra literária passa a ser associada a um fato recente, como estão 1984 e a gestão Trump, sem dúvida gera curiosidade, e o mercado editorial fica aquecido. Soma-se ainda a isso que o interesse por uma obra literária específica pode levar o leitor, agora estimulado, a buscar novas leituras”, explica Vani.

 

Autoria: Francine Moreno

Fonte: Diário da Região

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