Na mídia

A fragilidade dos cristais

As noites de 9 e 10 de novembro tornaram-se uma espécie de preambulo do que viria: uma história de horror

No próximo dia 9 de novembro, a comunidade judaica relembra os 82 anos da Noite dos Cristais (Kristallnacht, em alemão), ocorrida na Alemanha e na Áustria, evento que marcou o início da perseguição aos judeus pelo Estado Nazista.

Esse episódio de vandalismo entrou para história a com esse nome pelo fato de as ruas terem ficado forradas de vidros quebrados, como pequenos cristais após as violentas invasões em residências, escritórios e comércios pertencentes a membros da comunidade judaica e, de modo bastante simplista, foi uma grande exibição do autoritarismo do governo de Adolf Hitler. Como os acontecimentos revelam a seguir, as noites de 9 e 10 de novembro tornaram-se uma espécie de preambulo do que viria a seguir: uma história de horror que alcançaria a marca de 6 milhões de judeus inocentes mortos, além de tantas outras vítimas condenadas pelo Estado Nazista.

A partir do passado, olhar o presente nos revela o quanto a Noite dos Cristais deixou importante ensinamento: toda aquela barbárie era sinal do que estava por vir, um importante recado ignorado pela sociedade da época. E hoje, o que nos parece ocorrer a todo momento, são sinais que revelam o mal que o retorno do autoritarismo tem feito ao mundo neste século 21.

Após mais de oito décadas, a humanidade novamente testemunha, passivamente, sérios episódios de violação dos direitos humanos ocorrendo simultaneamente em diversas partes do mundo. Os ataques recentes acontecidos na França e Áustria, deixando mortos, feridos, medo e barbárie digna de Idade Média, com dois casos de decapitação; igrejas e sinagogas atacadas em episódios reivindicados por extremistas islâmicos ao mesmo tempo em que são condenadas pelas lideranças religiosas do Islã ao redor do mundo.

Nos Estados Unidos, a eleição do chamado “líder do mundo livre” gera indignação, revolta e descrédito ante as Fake News constantemente propagadas, com o objetivo único de enfraquecer o pleito e colocar em dúvida a lisura do sistema eleitoral. Por aqui, enquanto o mundo testemunha o ressurgimento da COVID-19, nós ainda amargamos com a onda inicial, que não se dissipou ou deu tréguas e, somente em nossa cidade, já ceifou a vida de mais de 700 pessoas! Sim, mais de 700 famílias vivem o luto e procuram conviver com a ausência daqueles que amam e, nem assim, a população parece ter se dado conta da gravidade da situação. Ao avançarmos no mapeamento local, nossa cidade parece ter virado terra de ninguém, com casos e mais casos de violência de todos os tipos: feminicídio, facadas, tiros e vidas se perdendo como se nada fossem.

Não bastasse a crise sanitária, as crises política e econômica mostram que 2021 será um ano desafiador, em que muitos pais de família precisarão lutar – mais que nunca, pela sobrevivência dos seus, pois ao que nos revelam as contas no final do mês, o antigo fantasma da Inflação voltou a rondar as nossas vidas. Por fim, a crise moral tem deixado a população cega, relativizando há tempos sérios crimes como corrupção. Diante de tanta tristeza e desolação, não nos surpreende as imagens de operadores do Direito, subjugando e humilhando, sem qualquer moralidade ou observância do princípio da dignidade da pessoa humana, uma jovem de 21 anos que alegou ter sido estuprada.

Meu desejo ao final de tudo isso? Que nossa sociedade tenha força e sabedoria para superar as crises; perspicácia para enxergar mais longe, de modo a proteger nossa democracia, tão jovem e frágil, como o cristal.

Fonte: Diário da Região

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