Na mídia

Jesus não tem dentes no país dos banguelas

Mais do que nunca, neste final de ano, é importante que cada um possa se sentir acolhido por essa figura histórica, filosófica e religiosa, tendo como ponto de partida sua própria identidade.

Faltando poucos dias para o Natal, talvez seja o momento oportuno para refletir sobre valores e pressupostos, após um período de atribulações, como o causado pela pandemia da Covid-19.

De acordo com a mitologia hebraico-cristã, Jesus Cristo, o filho de Deus, foi enviado à terra para salvar a humanidade de seus pecados por meio do maior sacrifício que poderia fazer – Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz – e representa a máxima bondade e altruísmo, cujas ações podem ser compreendidas apenas pela mediação da fé. Dois pontos aqui merecem destaque: Jesus de Nazaré não era cristão, ele era o próprio Cristo. O menino, nascido do ventre de Maria, Rei dos Reis, era judeu, uma religião tribal e pouco numerosa, cujos feitos são notáveis através da história.

Da propagação dos feitos de Jesus Cristo, nasceu o Cristianismo, religião praticada por uma enorme parcela da população mundial, dividida em dezenas de denominações. Uma outra religião com enorme número de seguidores, o Islamismo, conta também com Jesus Cristo entre os profetas de Allah – o Compassivo, o Misericordioso – ao lado de outras personagens bíblicas, como Abrahão e Moisés, e termina em Maomé, o último profeta. Como se pode ver, Jesus está presente em todas as três religiões abraâmicas.

A figura emblemática de Jesus Cristo encontra paralelos também na Umbanda, religião genuinamente brasileira, que tem suas bases em uma composição das religiões de matriz africana com o Catolicismo: Oxalá é o Criador, é o próprio Cristo.

Há também a possibilidade de olharmos para Jesus Cristo como personagem histórico, e perceberemos que seus ensinamentos filosóficos e valores morais foram suficientes para deixar uma enorme e incomparável herança à humanidade, riqueza essa que precisa ser redescoberta com urgência.

Em tempos sombrios, com tantos discursos vazios e antagônicos sendo proferidos de modo tão visceral por oponentes ideológicos e identitários, a figura de Jesus Cristo vez por outra acaba tornando-se o centro de discussões que beiram a irracionalidade e, às vésperas da data convencionada para celebrar o aniversário Dele, é importante lembrar que o fato de o Criador ter feito o homem “à imagem e semelhança” traz em si a beleza da mutirepresentatividade do Deus-Filho, e “Os Titãs”, em verso que dá nome a esse artigo, diziam isso já em 1987. Jesus sempre terá enorme importância, seja Negro, criado recentemente pela artista plástica Lorna May Wadsworth; seja com a pele alva, criado por Leonardo da Vinci há cinco séculos; ou Jesus com pele morena, típica dos povos do Oriente Médio, como a ilustração feita pelo especialista Richard Neave há quase duas décadas, ou ainda, a versão de olhos amendoados criado pelo animador Barry Cooke, para um desenho “anime” japonês. Mais do que nunca, neste final de ano, é importante que cada um possa se sentir acolhido por essa figura histórica, filosófica e religiosa, tendo como ponto de partida sua própria identidade.

Um santo e abençoado Natal a todos.

Prof. Dr. João Paulo Vani

Fonte: Diário da Região

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